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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

As desigualdades sociais brasileiras do século XIX nas brincadeiras infantis

Pessoal, aí está mais um texto que trabalhamos em aula. Lembrando que trata-se de uma adaptação, o texto original está aqui.


Quadro de Debret com crianças brancas e negras brincando juntas.
Para conhecer os costumes e os problemas de uma sociedade, pode ser útil observar como brincam suas crianças. No século XIX, assim como hoje, as crianças brincavam de ser adultos e reproduziam a realidade de um país marcado pela escravidão e pela desigualdade entre homens e mulheres. As brincadeiras, por exemplo, quando acompanhadas por adultos, era pelas mães dos pequenos, já que atender crianças, na época, não era “coisa de homem”.
As brincadeiras demonstravam um olhar sensível para a realidade da época: brincar de ser adulto possibilitava para os meninos ricos imaginar-se como proprietários dos escravos e maltratar animais diante das crianças escravas, como exemplo do que poderiam fazer com “seus escravos”. Algumas crianças tinham seu próprio chicote e os filhos de fazendeiros faziam das crianças negras o seu próprio brinquedo, exigindo que fossem seus cavalinhos ou “animaizinhos da fazenda”.
O ambiente doméstico e o fato de meninos livres e escravos brincarem sob o mesmo teto reforçam a ideia de amizade entre eles, como se as brincadeiras fossem capaz de diminuir a violência escravocrata. Mas não era assim. Embora fosse possível encontrar no cotidiano situações nas quais as crianças brincavam juntas apesar das diferenças entre livres e escravos, com frequência partiam para ações que demonstravam a ideia de mando do menino branco sobre o negro. Não é a toa que o sociólogo Gilberto Freyre encontrou nos seus estudos a figura do “leva-pancadas”: criança negra que era companheira de brincadeiras dos filhos dos fazendeiros, mas em geral tinha de fazer papeis de submissão, como o “cavalinho”.
Babá negra "cuida" de filho de membros da elite.
Imagens de submissão comuns no século XIX.
Entre as meninas, havia a brincadeira de “tornarem-se comadres” quando tinham um objeto em comum: a boneca de louça. Batizavam as “filhas-bonecas” e tomavam chá repetindo alguns modos que observavam quando senhoras ditas distintas as visitavam. As bonecas de louça eram louras e de olhos azuis, vestidas de modo elegante e nunca saiam para a rua, assim como suas “mães”.
As bonecas de pano eram mais voltadas para as meninas menos abastadas, produzidas artesanalmente por tias ou mães das crianças. As bonecas de pano eram doadas quando suas donas cresciam e depois eram restauradas. As de louça eram raras de serem doadas. Crescendo a menina-mãe da boneca, era mais provável que o brinquedo se mantivesse como relíquia da casa.
Enquanto as meninas de elite brincavam mais dentro de casa, os meninos brincavam fora – não necessariamente na rua, mas nos quintais das grandes casas dos senhores.
Frutos da imaginação infantil, as “comadres” unidas no batismo das bonecas de louça e os “senhores” que transformavam pequenos escravos em animais foram personagens do Brasil Império. 


Texto adaptado de: FREITAS, Marcos. Brincando de ser adulto. IN: Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 8, nº 89, fev. de 2013.

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