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terça-feira, 28 de abril de 2015

Voto obrigatório: direito, obrigação ou dever?

Há tempos se discute no Brasil uma reforma política. Dentre os pontos mais falados está a questão da obrigatoriedade do voto. Como se sabe, no Brasil, o voto é obrigatório para homens e mulheres entre 18 e 70 anos e facultativo para jovens entre 16 e 18, maiores de 70 anos e analfabetos.
Barco da Justiça Eleitoral leva eleitores
as urnas na Amazônia
Para alguns, a obrigatoriedade do voto  restringe o direito do eleitor de decidir se quer mesmo ir ou não participar do jogo eleitoral. Seria uma obrigação imposta pelo Estado que retiraria uma liberdade do cidadão.
Para os defensores da manutenção do voto obrigatório, a ida a urna é mais que uma obrigação ou direito: é um dever. Assim como todo o cidadão brasileiro tem o dever de fazer o registro civil,  concluir o ensino fundamental e se alistar nas Forças Armadas, tem também o dever de votar, ou comparecer a urna, já que não é obrigado a escolher um candidato, pois tem a opção de abster-se a partir do voto em Branco ou anulação do voto.
Campanha favorável ao fim do voto
obrigatório.
Para quem é contra o voto obrigatório, a opção de ir as urnas possibilitaria uma maior "qualidade do voto", pois iriam aqueles que tem estudos e participação política. No entanto, esse argumento traz um olhar elitista, pois parte da ideia de que quem não tem estudo "não sabe votar". Alegam também que na maioria dos países o voto é facultativo. Para os favoráveis a manutenção da obrigatoriedade, o voto facultativo excluiria setores sociais como os mais pobres, que por vários motivos acabariam reduzindo sua participação nas eleições, lembrando que os políticos costumam levar em conta na sua atuação aqueles que o elegeram. Se os pobres não votam, porque se preocupar com eles?
Enfim, o debate é grande e deixo aqui o vídeo do cientista político Bruno Reis sobre o tema.
Participem também da enquete ao lado: você é a favor ou contra o fim do voto obrigatório no Brasil?

BIBLIOGRAFIA
ARAÚJO, Cícero. Voto Obrigatório. IN: AVRITZER, L. Reforma Política no Brasil, UFMG, 2006.
KERCHE, Fábio, FERES JR. João. Um nobre dever. IN: Revista de História da Biblioteca Nacional, outubro de 2014.
STADLER, Júlia. Às urnas, cidadão! IN: Revista de História da Biblioteca Nacional, outubro de 2014.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Os faraós egípcios: reis e deuses


Não é possível falarmos do Egito Antigo sem nos referirmos a figura principal em termos de poder nesta sociedade: O rei, ou, como passou a ser conhecido a partir do Antigo Império, o Faraó. Seja na religião, na política, na sociedade ou na economia, a figura do monarca está sempre presente na vida dos egípcios.
A religião no Egito caracteriza-se pelo seu politeísmo. Além disso, a concepção de vida dos egípcios era impregnada pelas práticas religiosas: A produção originada no Nilo era considerada um presente dos Deuses; os cultos eram feitos visando o bem-estar das divindades, fazendo-as agir pelo bem de todos os egípcios, etc. Na relação entre sociedade e Faraó não é diferente: o rei é visto também como o próprio Deus, cabendo a ele agir da forma que mantenha o povo vivendo bem, sem riscos de perdas na produção econômica ou de ameaças externas. O Rei é o Deus na terra e é sua origem divina que legitima seu poder. Entretanto, após a sua morte, não o Deus que morre: é apenas o homem, pois o seu sucessor herdará as “divindades” que o predecessor representava.
Representação do Faraó Akhenaton (ou Amenófis IV) e sua
família. Este farão reinou no século X a.C.
O poder faraônico é expresso de diversas formas: Quando obriga a população camponesa a trabalhar obrigatoriamente para o Estado, o que é chamado de trabalho compulsório. Quem ergueu as grandes pirâmides ou a esfinge, entre tantas obras “faraônicas”? – expressão, aliás, advinda da grandiosidade das obras construídas pelos senhores do Egito. Graças a esta mão de obra, que não reclamava de tal esforço: uma vez que entendiam aquele trabalho como uma ordem divina, simbolizada pelo Faraó. As artes também são formas de representação do poder político egípcio: nas pinturas é normal aparecer a figura do Rei maior do que dos outros egípcios, ou agredindo os estrangeiros que pudessem invadir o “mundo” egípcio.
A economia é quase totalmente controlada pelo Estado faraônico. Ou seja, praticamente toda a atividade econômica do Egito Antigo está nas mãos do Faraó e sob controle de seus funcionários: na agricultura, atividade por excelência da sociedade egípcia, metade da produção dos camponeses eram recolhidas para os templos. A historiografia consolidou o conceito de corvéia para esta prática. Logicamente quem fazia o “trabalho sujo” eram os funcionários do templo: a eles cabiam fazer o recolhimento da corvéia e há inúmeros testemunhos de que não faziam de forma muito amigável... Mas porque os camponeses deviam pagar a corvéia? Porque praticamente toda a terra pertencia ao Estado, e dessa forma, toda a produção de um camponês pertencia não a si próprio, mas ao Faraó e este tomava as decisões quanto ao destino desta riqueza.

Como vimos, é impossível olharmos a sociedade egípcia sem entendermos a figura do Faraó e o seu papel como monarca.
Processo de mumificação do Faraó

Mais sobre Egito Antigo no Blog: http://profeandersonhistoria.blogspot.com.br/search/label/Egito%20Antigo

segunda-feira, 30 de março de 2015

O que faz do ser humano diferente?

Interessante reportagem da BBC (link) sobre as quinze mudanças que fazem do homem o animal mais "curioso" que existe. Traz a tona diversos pontos sobre o que seria a evolução humana e como ela se diferenciou dos outros animais. Enfim, concordam com a reportagem?


Quinze mudanças que nos fizeram humanos

  • Representação da evolução humana: da esq. para a dir.:
    Australopithecus, Homo Erectus, Neanderthalensis e Sapiens
    29 março 2015
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Mudanças genéticas em ancestrais humanos determinaram "vantagens" na vida moderna.
Os humanos são provavelmente a espécie mais curiosa que já existiu.
Temos cérebros muito maiores que os de outros animais e que nos permitem construir utensílios, entender conceitos abstratos e usar a linguagem.
Mas também temos poucos pelos, mandíbulas fracas e demoramos para dar à luz.
Como a evolução explica essa criatura extravagante?

1. Viver em grupo


Os primeiros primatas, grupo que inclui macacos e humanos, surgiram pouco depois do desaparecimento dos dinossauros. Muitos começaram rapidamente a viver em grupos para melhor se defenderem de predadores, e isso exigiu de cada animal "negociar" uma rede de amizades, hierarquias e inimizades.
Sendo assim, viver em grupo pode ter impulsionado um aumento da capacidade intelectual.

2. Mais sangue no cérebro

Há 10-15 milhões de anos
Humanos, chimpanzés e gorilas descendem todos de uma espécie desconhecida e extinta de hominídeo.
Neste ancestral, um gene chamado RNF213 evoluiu rapidamente e pode ter estimulado o fluxo de sangue para o cérebro ao ampliar a artéria carótida.
Nos humanos, as mutações do RNF213 causam a doença de Moyamoya - um estreitamento da carótida que leva ao deterioramento da capacidade cerebral por conta da pouca irrigação do cérebro.

3. A divisão dos primatas

Há 7-13 milhões de anos
Nossos ancestrais se separaram de seus parentes parecidos com os chimpanzés há cerca de 7 milhões de anos. No início, tinham uma aparência bem similar, mas por dentro suas células estavam em marcha.
Os genes ASPM e ARHGAP11B entraram em mutação, assim como um segmento do genoma humano chamado HAR1.
Ainda não está claro o que provocou essas modificações, mas o ARHGAP11B e o HAR1 estão associados ao crescimento do córtex cerebral

4. 'Picos' de açúcar

Depois que a linha evolutiva humana se separou da linha dos chimpanzés, dois genes sofreram mutações.
Há menos de sete milhões de anos
O SLC2A1 e o SLC2A4 formam proteínas que transportam glicose para dentro e para fora das células.
Essas modificações podem ter desviado glicose dos músculos para o cérebro de hominídeos primitivos e é possível que tenha estimulado o crescimento do órgão.

5. Mãos mais hábeis

Nossas mãos são incrivelmente hábeis e nos permitem construir ferramentas ou escrever, entre outras atividades.
Há menos de 7 milhões de anos
Isso pode se dever em parte a um fragmento de DNA chamando HACNS1, que evoluiu rapidamente desde que nossos ancestrais e os ancestrais dos chimpanzés se dividiram.
Não se sabe o que o HACNS1 faz exatamente, mas ele contribuiu para o desenvolvimento de nossos braços e mãos.

6. Mandíbulas fracas: mais espaço para o cérebro

Em comparação com outros primatas, os humanos não podem morder com muita força porque têm músculos mais fracos em volta da mandíbula, bem como mandíbulas menores.
Há 2,4 - 5,3 milhões de anos
Isso parece se dever a uma mutação do gene MYH16, que controla a produção de tecido muscular.
A mutação ocorreu há pelo menos 5 milhões de anos. Mandíbulas pequenas podem ter liberado espaço para o crescimento do cérebro.

7. Dieta variada

Nossos ancestrais primatas mais antigos comiam principalmente frutas, mas espécies posteriores como o Australopithecus ampliaram seu cardápio.
Há 1,8 - 3,5 milhões de anos
Além de se alimentar com uma variedade maior de plantas, como ervas, comiam mais carne e inclusive a cortavam com ferramentas de pedra.
Mais carne levou ao consumo de mais calorias e menos tempo de mastigação.

8. Pelado, nu com a mão no bolso

Os humanos são quase pelados. Não se sabe a razão, mas isso ocorreu entre 3 e 4 milhões de anos atrás.
Há 3,3 milhões de anos
Suspeita-se que a perda de pelos tenha ocorrido em resposta à evolução de parasitas como carrapatos.
Exposta ao sol, a pele humana escureceu e a partir de então todos nossos ancestrais foram negros até que alguns humanos modernos deixaram os trópicos.

9. Um gene de inteligência

Há 3,2 milhões de anos
Um gene chamado SRGAP2 foi duplicado três vezes em nossos ancestrais e, como resultado, células cerebrais teriam desenvolvido mais conexões.

10. Cérebros maiores: primatas pensantes

Os humanos pertencem a um grupo ou gênero de animais conhecido como Homo. O fóssil mais antigo de Homo foi escavado na Etiópia e tem 2,8 milhões de anos.
Há 2,8 milhões de anos
A primeira espécie foi possivelmente o Homo habilisembora cientistas discordem deste argumento.
Em comparação com seus ancestrais, esses novos hominídeos tinham cérebros muito maiores.

11. Parto complicado: uma cabeça muito grande

Para os humanos, o parto é mais difícil e perigoso.
Há pelo menos 200 mil anos
Diferentemente de outros primatas, as mães quase sempre precisa de ajuda.
Caminhar sobre duas pernas fez com que as fêmeas humanas tenham um canal pélvico mais estreito e passagem de um bebê humano com a cabeça maior de seus ancestrais ficou dificultada.
Para compensar esse "problema logístico", bebês humanos nascem pequenos e indefesos.

12. Controle do fogo

Ninguém sabe quando os humanos aprenderam a controlar o fogo.
Há 1 milhão de anos
A evidência mais antiga do uso do fogo está na Caverna de Wonderwerk, na África do Sul, que contém cinzas fossilizadas e ossos queimados datando de um milhão de anos.
Mas alguns especialistas afirmam que o fato de homem já ser capaz de processar alimentos há mais tempo do que isso poderia incluir o ato de cozinhar.

13. O dom da fala

Todos os grandes hominídeos têm sacos de ar em seus tractos vocais, o que lhes permite emitir fortes gritos.
Há 600 mil - 1,6 milhão de anos
Mas não os humanos, porque essas bolsas fazem impossível produzir diferentes sons.
Nossos ancestrais aparentemente perderam os sacos de ar antes de se separar em termos evolucionários da espécie Neanderthal, o que sugere que eles também podiam falar.

14. Um gene para a linguagem

Algumas pessoas têm uma mutação em um gene chamado FOXP2.
Há meio milhão de anos
Como resultado, custa a elas entender gramática e pronunciar palavras.
Isso sugere que o FOXP2 é crucial para aprender o uso da linguagem.

15. Saliva reforçada para comer carboidratos

A saliva humana contém uma enzima chamada amilasa, fabricada pelo gene AMY1, e que digere amidos.
Humanos descendentes de agricultores têm mais cópias do gene AMY1
Os humanos modernos cujos ancestrais foram agricultores têm mais cópias do AMY1 que aqueles cujos ancestrais era caçadores, por exemplo.
Este reforço digestivo pode ter ajudado a dar início ao cultivo, aos povoados e às sociedades modernas.
Representação de um grupo de Homo Neanderthalensis

quarta-feira, 11 de março de 2015

O Estado Islâmico e a destruição do patrimônio histórico

O Estado Islâmico (EI) tem-se destacado nos noticiários pela sua ação em favor da construção de um estado muçulmano radical e contra aqueles que entendem ser adversários do islã, desconsiderando as presenças de outras culturas e religiões.
Bandeira do EI do Magreb,
norte da África.
Parece que nos últimos dias, além de perseguir aqueles que não concordam com suas posições - sejam muçulmanos de outras correntes ou não-muçulmanos - parece que o novo alvo do EI é o patrimônio histórico. O vídeo abaixo apresenta a destruição pelo radicais de estátuas de ídolos da cultura assíria, que existiu no atual Iraque a mais de 3 mil anos. A destruição destes vestígios são também um ataque a um pedaço da história, sob a alegação deste grupo de que não representvaam o islã ... O trabalho histórico é que acaba pagando...





Obs: O fundamentalismo religioso - a defesa de uma religião a partir de uma interpretação radical dos textos sagrados - não é uma exclusividade do islã: o link abaixo apresenta diversos grupos fundamentalistas tanto na religião judaica, como na cristã!


Mapa da região de atuação principal da EI, destacada
em vermelho, entre o Iraque e a Síria.
Superinteressante: o que é fundamentalismo?

Outras informações sobre o EI e as destruições de patrimônios:

El País
Terra
Folha de São Paulo

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Os últimos dias da Ditadura (1984-1985): diretas já!, eleição indireta e o presidente que não foi...

Prezados/as,

A Ditadura Militar já vinha dando sinais de cansaço e desgaste nos fins dos anos 70. A crise do petróleo enfraqueceu a economia brasileira, entrando, a partir de 1978, numa crise profunda, só solucionada nos anos 90. As pressões da sociedade sobre os governos militares também forçavam o regime a abrir, bater em retirada aos poucos para retornar aos quartéis. No entanto, todo esse movimento de abertura era controlado pelos militares, evitando que o poder civil fosse retomado por lideranças de oposição mais forte e mais à esquerda.
Centro de Porto Alegre tomada pelo povo em manifestação
das Diretas, em 1984.
De qualquer forma, havia as pressões vinda das oposições moderadas - destacando-se a igreja, as entidades civis como a Ordem dos Advogados do Brasil e o MDB, partido de oposição ao regime; do novo sindicalismo, disposto a lutar pelos melhores salários a partir da greve e sem estar preso ao Estado e o retorno dos exilados da ditadura como Leonel Brizola, feroz adversário da Ditadura instaurada em 1964.
Uma das medidas adotadas pelo governo para abrir o regime foi o fim do bipartidarismo e o retorno do pluripartidarismo - ou seja, não era obrigado a ter apenas dois partidos - a medida acabou dividindo as oposições, pois o MDB se transformou em três partidos: PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), PT (Partido dos Trabalhadores), PDT (Partido Democrático Trabalhista). Enquanto a ARENA - partido do regime, apenas trocou de nome: PDS (Partido Democrático Social). Também foram retomadas as eleições para governadores e prefeitos de capitais, impedidas desde 1966.
Todavia, ainda não poderia ter eleições diretas para presidente. Dai a população, com a liderança de diversos partidos e entidades sociais, terem ido as ruas do país em 1984 para protestar pelas "Diretas-Já!" Ou seja, defender a volta da eleição pelo voto popular para presidente. As manifestações ocorreram por todo o país e pressionavam o Congresso Nacional a votar a favor da Emenda do deputado Dante de Oliveira (PMDB-Mato Grosso) que marcava eleições para 1985. Apesar do povo nas ruas, a emenda foi rejeitada.
Lideranças políticas brasileiras em manifestação pelas Diretas
O que não significava que não teria eleições: estava marcada para 15 de janeiro de 1985 as eleições indiretas - ou seja, feita apenas entre os deputados e senadores do Congresso - que definiria o primeiro presidente civil do país depois de 21 anos. Foram lançados Tancredo Neves (PMDB-Minas Gerais) e Paulo Maluf (PDS - São Paulo). É interessante que o próprio regime apoiou a candidatura de Tancredo, um homem moderado e que havia se comprometido e fazer uma transição para o regime democrático de forma gradual. Abandonaram, dessa forma, o candidato do partido regime, o ex-governador de São Paulo Maluf.
Portanto, com um grande apoio no Congresso, Tancredo venceu as eleições e seria o novo presidente do Brasil. No entanto, não foi. Acometido por um tumor, Tancredo acabou sendo internado em um hospital um dia antes da sua posse e veio a falecer em 21 de abril de 1985.
Capa da revista Manchete destaca a vitória
de Tancredo, abraçado ao seu vice, Sarney.
Quem assumiu era Jose Sarney, ex-governador do Maranhão, homem do regime militar, mas que havia trocado de lado para apoiar Tancredo. Seu governo foi controverso, em uma época complicada para o país, mas aí é tema para outro post...

BIBLIOGRAFIA:

Gomes, Rodrigo. 1989: a maior eleição da história. Porto Alegre, ed. Lorigraf, 2014.